O SARS-CoV-2 é um novo coronavírus que saltou a barreira entre espécies. Quer isto dizer que este vírus foi transmitido ao Homem a partir de um animal reservatório ou hospedeiro desse mesmo vírus. A doença por ele originada é designada por COVID-19 e foi identificada pela primeira vez em dezembro de 2019, na China. 1
Neste relatório, pretendemos avaliar a situação epidemiológica relativa a esta doença em Portugal desde o início da pandemia, com base nos dados do sites https://github.com/dssg-pt/covid19pt-data e https://www.ecdc.europa.eu/en/publications-data/data-covid-19-vaccination-eu-eea.
Este relatório visa analisar os seguintes pontos:Para analisar a evolução dos casos diários, utilizámos os valores de casos confirmados em indivíduos do sexo feminino e masculino para cada faixa etária. Uma vez que estes números são cumulativos, criámos novas colunas com a soma dos valores correspondentes aos 2 sexos para cada faixa etária e ainda outras com a diferença de valores da linha anterior, passando tudo para uma tabela nova com os valores de interesse para esta parte da análise. A base de dados utilizada inclui informação desde o dia 26 de Fevereiro de 2020, sendo atualizada diariamente.
No começo do período apresentado no gráfico acima, existia um maior número de casos, em termos percentuais, do grupo etário dos 40 aos 49 anos. Em abril de 2020, por exemplo, observa-se que a população portuguesa com 80 anos ou mais, foi a mais afetada. Por outro lado, no passado mês de Agosto, registou-se uma maior percentagem de casos novos no grupo etário dos 20 aos 29 anos.
Observando os traçados acima, constata-se que houve um aumento significativo no número de novos casos em todos os grupos etários, após a época natalícia de 2020. Já no ano de 2021, verifica-se que, durante os meses de verão, os casos novos também aumentaram, especialmente nalgumas camadas mais jovens.
Casos confirmados cumulativos de COVID-19 por administração regional de saúde.
Casos confirmados cumulativos de COVID-19 na região dos Açores.
Casos confirmados cumulativos de COVID-19 na região da Madeira.
Para analisar a evolução dos casos graves, utilizámos os valores correspondentes aos internados da base de dados acima citada. Esta informação inclui as pessoas que foram internadas em unidades de cuidados intensivos (UCI) e em enfermaria.
Verifica-se que a evolução dos casos graves segue a tendência vista acima relativa à evolução de novos casos diários. A linha vertical assinala o começo da campanha de vacinação em Portugal.
A vacinação contra a COVID-19 surge como uma resposta central para controlar a pandemia. Tem o objetivo de prevenir o aparecimento de doença grave e das suas consequências, de forma a reduzir a pressão exercida sobre o sistema nacional de saúde. Um indivíduo vacinado só se encontra protegido da doença uma a duas semanas após a vacinação completa. Este é o período que dá garantia de uma resposta robusta por parte do seu sistema imunitário. Ainda se desconhece se a vacinação impede a infeção assintomática. Ou seja, as vacinas conferem proteção contra a doença, mas não protegem necessariamente outras pessoas caso sejamos “portadores” e transmissores do vírus, sem exibir sintomas. As máscaras e o distanciamento evitam que possamos infetar outras pessoas caso sejamos “portadores” do vírus sem saber. Neste momento, não é possível avaliar por quanto tempo a proteção que a vacinação confere se irá manter, nem se haverá necessidade de administrar uma dose de reforço e qual a sua periodicidade.2
Portugal é constituído, aproximadamente por 10 400 000 habitantes 3. Assim, tendo em conta que os estudos apontam para a necessidade de 85% da população vacinada para a obtenção de imunidade de grupo 4, verifica-se abaixo que o valor pretendido já foi alcançado.
Seguidamente, observa-se em detalhe a evolução de vacinação de acordo com cada faixa etária previamente referida.
Em Portugal, estão previstas atualmente no programa vacinal contra a COVID-19 4 vacinas diferentes: COVID-19 Vaccine Janssen (JANSS), Vaxzevria (AZ), COVID-19 Spikevax (MOD) e Comirnaty (COM). A primeira envolve apenas uma dose, enquanto as restantes necessitam de 2 administrações. Nos traçados dos gráficos acima, entende-se por primeiras doses todas as primeiras tomas das 4 marcas disponíveis, independentemente de ser necessária uma nova administração. A vacinação completa refere-se às primeiras e únicas administrações de JANSS e às segundas administrações das restantes 3 vacinas, dependendo dos casos.
Os traçados do gráfico acima foram obtidos pela diferença entre valores cumulativos de Primeiras doses e de Vacinação Completa, em termos percentuais. A subida das várias linhas no gráfico apresentado justifica-se com o início do plano de vacinação, isto é, com a vacinação das pessoas com as primeiras doses. Quando se começou a dar as segundas doses vacinais, a diferença foi reduzindo, daí o declínio das várias curvas. Se toda a população que se apresentou inicialmente para vacinação tivesse completado o processo, esperaríamos que os traçados alcançacem o valor de 0% de vacinação incompleta. Como tal não ocorre, significa que houve pessoas que não receberam a 2ª administração da vacina, como estava inicialmente programado. Observa-se que a vacinação completa chegou mais perto do objetivo no grupo etário da população com mais de 80 anos e ficou mais longe de se concretizar nos indivíduos com idades compreendidas entre os 25 e os 49 anos.
Existem dois parâmetros ou índices de transmissibilidade: o R0, número básico de reprodução, e o R(t), número de reprodução efetivo em função do tempo. 5
O R0 trata-se do valor do R em condições “ideais” para o vírus em causa, isto é, revela o número médio de pessoas infetadas por cada doente quando toda a população é suscetível ao vírus, não havendo medidas de saúde pública implementadas e propagando-se o vírus na população, tendo em conta a taxa de contactos. Em Portugal, esta propagação “natural” deu-se até 16 de março, momento em que a primeira medida de contingência foi tomada. Deste modo, o nível de contágio expectável da epidemia e, consequentemente, as medidas necessárias para reduzir o R até um valor que permita o controlo do surto são apuradas por este indicador. Com a evolução da epidemia, realizam-se periodicamente atualizações do valor do R, designado por R(t). Trata-se de um indicador de quantas pessoas um determinado indivíduo pode infetar, dentro de um determinado período 6. A monitorização da sua evolução é fundamental para entender o efeito das medidas de contenção ao longo do surto de Covid-19 e para determinar a necessidade de aligeirar, aprofundar ou manter os esforços de contenção do vírus. O valor do Rt pode revelar-se ainda útil para avaliar a capacidade do sistema de saúde para lidar com a pandemia. Quando o R é superior a 1, o número de casos futuros tenderá a ser maior do que o número de casos atuais. Pelo contrário, quando o número é inferior a 1, o número de novos casos passa a ser inferior ao número de casos atuais. 7
Esta análise tem de ser feita em conjunto com outros dados, como o número de novos casos, o número de mortos, a ocupação de camas hospitalares e em cuidados intensivos, entre outros. 8
A Organização Mundial de Saúde qualificou a situação gerada pelo SARS-CoV-2 como sendo de emergência de saúde pública, tornando-se crucial a previsão de medidas para assegurar o tratamento da COVID-19 e estabelecer medidas excecionais e temporárias de resposta à epidemia, em particular no que respeita às liberdades de circulação e económica, com vista a prevenir a transmissão do vírus. A partir do dia 18 de março de 2020, foi decretado o estado de emergência em Portugal. 9
O gráfico abaixo demonstra a evolução do R(t) após o início do estado emergência:
O intervalo de série trata-se do tempo entre o início dos sintomas no indivíduo infetado primário (infectante) e o início dos sintomas no indivíduo que recebe aquela infecção do infectante (o infectado). 10 Para a COVID-19, estima-se que seja cerca de 4 dias. Tendo isso em consideração, consegue estimar-se o valor do R. De momento, o valor está abaixo da linha que marca o valor 1.
DGS: Perguntas frequentes [Internet]. 2021. [acedido em 2021 Out 6]. https://covid19.min-saude.pt/category/perguntas-frequentes/↩︎
DGS: Vacinação | Perguntas frequentes [Internet]. 2021. [acedido em 2021 Out 6]. https://covid19.min-saude.pt/perguntas-frequentes/↩︎
Expresso [Internet]. [acedido em 2021 Out 7]. https://expresso.pt/sociedade/2021-07-28-Censos-2021.-Populacao-portuguesa-diminuiu-2-em-10-anos-metade-concentra-se-em-31-concelhos-de-Lisboa-e-Porto-846aded9↩︎
OE [Internet]. [acedido em 2021 Out 7]. https://www.ordemenfermeiros.pt/noticias/conteudos/oe-alerta-que-imunidade-de-grupo-s%C3%B3-se-atinge-com-85-da-popula%C3%A7%C3%A3o-vacinada-e-est%C3%A1-contra-fim-da-m%C3%A1scara-em-outubro/↩︎
Instituto Nacional de Saúde Doutor Ricardo Jorge. 2021. Covid-19: curva epidémica e parâmetros de transmissibilidade. [acedido em 2121 out 21]. http://www.insa.min-saude.pt/category/areas-de-atuacao/epidemiologia/covid-19-curva-epidemica-e-parametros-de-transmissibilidade/↩︎
Governo dos Açores. 2021. Índice de Transmissibilidade (Rt). [acedido em 2021 out 21]. https://destinoseguro.azores.gov.pt/?page_id=9622↩︎
João Francisco Gomes. 2020. "“R” volta a subir e ameaça regresso à normalidade. Que número é este e porque é tão importante?". Observador; [acedido em 2021 out 21]. https://observador.pt/especiais/r-volta-a-subir-e-ameaca-regresso-a-normalidade-que-numero-e-este-e-porque-e-tao-importante/↩︎
Joana Sá. 2021. “Qual a importância do Índice de transmissibilidade R(t)?”. Cruz Vermelha Portuguesa. [acedido em 2021 out 21]. https://testescovidcvp.pt/rt-indice-de-transmissibilidade-covid-19/↩︎
Governo da República Portuguesa. 2020. Decreto do Governo que regulamenta o estado de emergência. [acedido em 2021 out 21]. https://www.portugal.gov.pt/pt/gc22/comunicacao/documento?i=decreto-do-governo-que-regulamenta-o-estado-de-emergencia↩︎
Baum SG. 2020. Serial Interval of COVID-19. https://www.jwatch.org/na51171/2020/03/27/serial-interval-covid-19↩︎